O amor… Por que é tão difícil medir algo que é simplesmente um sentimento, e pior ainda por que é mais difícil descrevê-lo? Às vezes lendo uma série de poemas temos uma leve noção do que seria o amor, mas numa perspectiva decadente e recalcada. Daí podemos parar um pouco para refletir, entre uma perspectiva romantizada do que é o amor e a idéia de décadent de Nietzsche prefiro a segunda opção, que não é tão discrepante da primeira situação, mas é realista e não se camufla em meio de uma série de “meu amor, minha vida sem ti é como um peixe sem água”.
Sei que minha formação acadêmica é praticamente toda empirista, baseada em acreditar em tudo que nos reflete diante dos sentidos e que eles nos guiam rumo aos caminhos certos da verdade, mas não posso deixar meu lado cético de lado e duvidar de tudo que o amor representa e significa numa maneira bem ampla.
Vou remeter num primeiro momento a Fedro de Platão:
“Cada humano adora o deus de quem foi companheiro. Imita-o como pode enquanto não está pervertido e enquanto aqui vive, depois do primeiro nascimento. Assim, todos imitam seu deus nas relações amorosas e nas outras. Cada um escolhe o seu amor de acordo com o respectivo caráter e passa a vê-lo como seu deus, eleva-lhe uma estátua no seu coração, enfeita-o para adorá-lo e celebra seus mistérios.” (Fedro, 2005, p.89)
Em uma coisa eu concordo com Platão e sempre concordei – semelhante atrai semelhante, e isso não se pode negar, por mais que se diga que os opostos se atraem, digo isto não em relação a gostos, pois nunca se encontrará um padrão para o gosto de um casal.
Além do mais, todos os homens têm em seus sentimentos, por mais inconscientes que sejam uma mísera que seja vontade de ser um deus, sendo forte, cheio de respostas e de verdades que nunca serão encontradas, e mesmo que eu esteja aqui indo pelo lado contrário da correnteza de Platão, me digam qual o homem que realmente já amou na vida que não coloque a pessoa amada num pedestal, adorando como um semideus e não espera o mínimo de reciprocidade da pessoa amada?
Todos buscam em seus subconscientes encontrar uma pessoa que seja a mais parecida com a pessoa mais sagrada do mundo para eles, que são as figuras maternas, paternas, sendo por laços sanguíneos ou não. E sabem o por quê? Simplesmente para aliviar o movimento de suas paixões, de maneira que entrando num estado de tranqüilidade, inibindo de certa forma seus graus de desejo, colocando a todos num estado de satisfação, sendo ele imaginário ou não.
Vamos supor, imaginemos os homens num período antes da socialização, numa época antes de um governo ou de leis que dissessem o que é justo ou injusto, certo ou errado. Período este em que uma guerra de todos contra todos era inevitável para que a sobrevivência dos homens fosse algo possível. Por que os homens passaram a se socializar se nada era de ninguém?
Todos sabemos que os instintos primitivos de socialização nada mais eram do que instintos sexuais e de posse, pois aquele que possuísse maior arrebanhamento de pessoas como sendo dos seus era quem era mais importante e forte, e aquele que não pudesse viver em sociedade ou teria que se forçar a isso ou morreria. A sociabilidade seria capaz de fornecer meios de vantagem para todos os envolvidos, que deveriam necessariamente simpatizar-se uns com os outros, caso contrário um mataria o outro em seu núcleo em nome de algo que logo seria escasso, comida, terra, qualquer coisa.
O amor seria o condutor para levar o homem a seguir sua tendência natural de satisfazer seu desejo e a necessidade das pessoas, trazendo generalizadamente felicidade e satisfação, sendo este um meio de ligar as pessoas a objetivos em comum e colocá-las em pé de igualdade com os outros. Mas será que este sentimento, tão integro e sincero seria somente isso?
“O grau de similaridade com a nossa pessoa que reconhecemos nos outros aumenta a medida que reconhecemos que seus desejos, paixões e propensões se parecem com nossos próprios, e que suas maneiras peculiares e sua língua são semelhantes às nossas.” (Ralws, 2005, p.100)
Instintos, desejo, busca por uma similaridade imediata, a busca no outro por padrões semelhantes aos próprios padrões, mas o que todos esquecem é que não existe perfeição, não existe certo ou errado, muito menos uma regra de três que de valor de verdade ao amor ou a qualquer outro sentimento, ou a qualquer outro objeto da razão.
O amor, analisando friamente, perde a cada dia seu valor, dando lugar ao cálculo frio e desregrado das paixões e dos instintos. As palavras perdem a cada dia mais seu valor, cada “eu te amo”, cada “você me faz falta”, cada “não sei mais viver sem você”, e me parece que o problema não está mais no amor como sensação, ou quem sabe o problema nunca estivesse nele, sendo toda esta questão apenas um distúrbio de comunicação entre os indivíduos que não sabem expressar um sentimento, ou até mesmo que não saibam fazer dele algo recíproco. Ou será que a dificuldade está em verbalizar e entender, ao mesmo tempo, algo que nos propomos a exteriorizar?
E agora me digam - O que há mesmo de errado com os poemas?